Advogado criminalista, quatro vezes vereador, ex-presidente da Câmara, opositor implacável e protagonista de uma das trajetórias mais controversas da política ilheense, Cosme Araújo retorna ao debate público exatamente como sempre fez: provocando reações.

Nos últimos dias, uma figura proeminente reassumiu seu espaço nas discussões políticas de Ilhéus. Bastaram algumas entrevistas em podcasts e veículos de comunicação para que um nome, aparentemente em recesso, voltasse a suscitar reações, evocar lembranças, polarizar opiniões e dinamizar debates. Não se tratou de um prefeito em exercício, nem de um deputado, tampouco de um secretário de governo. Tratava-se de Cosme Araújo Santos. Ou, como a cidade o reconheceu ao longo de mais de quatro décadas: “O Defensor”.

Poucas personalidades na política ilheense possuem uma trajetória tão marcante. Amado por alguns, contestado por outros, subestimado por adversários e respeitado até mesmo por aqueles que nunca o elegeram, Dr. Cosme jamais passou despercebido. No cenário político, há uma distinção substancial entre ser popular e ser inesquecível. Cosme talvez nunca tenha alcançado unanimidade, mas consolidou-se como uma das figuras mais notáveis da história política contemporânea de Ilhéus.

Advogado criminalista há mais de quarenta e cinco anos, vereador por quatro mandatos, ex-presidente da Câmara Municipal, procurador jurídico da União dos Vereadores do Brasil, suplente de deputado federal, defensor em alguns dos casos criminais mais repercutidos do país e protagonista de inúmeros embates políticos, Dr. Cosme construiu uma carreira que sempre transitou entre o Direito, a política e o espetáculo. Seria ingênuo negar que Cosme Araújo compreendeu, muito antes das redes sociais, que a política é também comunicação, e que a comunicação exige presença.

Nos tribunais, conquistou reputação pela combatividade. Na tribuna da Câmara, tornou-se um dos parlamentares mais assíduos e contundentes do Legislativo ilheense. No mandato entre 2013 e 2016, foi exemplo amplamente reconhecido, registrou presença integral nas sessões, liderou debates e propôs projetos que, curiosamente, afetavam a própria classe política, como a sugestão de redução dos subsídios dos vereadores. Décadas antes, presidiu os trabalhos que culminaram na promulgação da primeira Lei Orgânica do Município de Ilhéus, marco institucional da redemocratização local.

No entanto, seria um equívoco resumir Dr. Cosme Araújo apenas aos cargos que ocupou. Sua personalidade sempre se sobressaiu aos seus mandatos. Quem vivenciou a política ilheense sabe que ele nunca precisou de um cargo para continuar exercendo oposição. Mesmo após derrotas eleitorais, manteve-se ativo no debate público. Adquiriu um site de notícias, intitulou de: “O Defensor”, transformando denúncias da população em pauta permanente e fazendo do jornalismo uma extensão de sua atuação política. Foi também nesse período que consolidou uma parceria profissional com o jornalista Fábio Roberto, que mais tarde seguiria carreira independente como repórter investigativo e proprietário do portal que leva seu nome.

Foi também nesse período que protagonizou um dos episódios mais peculiares da comunicação regional ao contratar uma figura anônima, Dona Solange — conhecida posteriormente em todo o Brasil como “Solange, a Gaga de Ilhéus”. O que começou como uma cena de caráter quase folclórico transformou-se em fenômeno nacional, levando a personagem a programas humorísticos de televisão, inclusive ao lado de Tom Cavalcante.

Contudo, o aspecto folclórico nunca suplantou o profissionalismo. Cosme alcançou notoriedade nacional ao assumir a defesa da modelo Najila Trindade no controverso Caso Neymar, em 2019. Foi o quarto advogado a encarar uma das maiores crises midiáticas da carreira do jogador. A repercussão reposicionou Ilhéus no noticiário nacional por meio de um advogado que jamais hesitou em enfrentar casos considerados inviáveis.

Essa talvez seja sua principal característica. Cosme nunca selecionou causas fáceis. Defendeu adversários políticos históricos, como o ex-prefeito Valderico Reis e membros de sua família, evidenciando a distinção entre o advogado e o político: no âmbito jurídico, prevalece a técnica; nas urnas, prevalece a convicção. Poucos conseguem separar esses dois universos com a naturalidade que ele demonstrou ao longo de sua carreira.

Se há um nome que marcou o embate de sua trajetória política, esse nome é Jabes Ribeiro. Por décadas, estiveram em polos opostos da política local. Jabes quase sempre obteve vitórias nas urnas; Cosme quase sempre ocupou a oposição. E talvez precisamente por isso ambos tenham protagonizado uma das rivalidades políticas mais duradouras da história dessa cidade. Divergiam em praticamente todos os pontos, mas contribuíram, cada um à sua maneira, para moldar o debate político de Ilhéus por mais de trinta anos.

Nos últimos anos, em período sabático Cosme reduziu a intensidade de sua participação na vida pública. Amigos próximos atribuem esse afastamento a um tratamento de saúde enfrentado com muita discrição. Atualmente, o profissional dedica grande parte de seu tempo ao escritório Cosme Araújo & Kellyn Araújo Advocacia Criminal, onde compartilha experiência e protagonismo com sua filha, Dra. Kellyn Araújo, preparando uma nova geração de criminalistas sem abandonar a paixão pelos tribunais.

Aos 72 e ainda com uma verocidade juvenil, talvez seja prematuro afirmar se Cosme retornará ou não à política. Contudo, essa talvez não seja mais a questão central. A verdadeira indagação é outra: quantos personagens da política ilheense conseguem ausentar-se por alguns anos e, após concederem apenas duas ou três entrevistas, retornarem imediatamente ao centro das discussões da cidade?
Muito poucos. Pois cargos públicos são efêmeros. Mandatos se encerram. Eleições findam. Personagens, contudo, persistem.
Cosme Araújo pertence precisamente a essa categoria rara de figuras públicas que transcenderam a condição de político para se tornarem parte da memória coletiva de Ilhéus. Concorde-se ou não com suas posições, uma conclusão parece inegável: a história política da cidade pode ser narrada sem muitos personagens, mas sem Cosme Araújo, jamais.