domingo, 12 de abril de 2026

Carta aberta dos monitores de ressocialização do Conjunto Penal de Itabuna

 


“À sociedade itabunense, às autoridades constituídas e, em especial, ao Governador do Estado da Bahia, Jerônimo Rodrigues. Nós, Monitores de Ressocialização que atuam diariamente no Conjunto Penal da cidade de Itabuna, vimos a público, por meio desta carta aberta, denunciar o cenário de sofrimento, adoecimento físico e psicológico, perseguições e riscos constantes à vida ao qual estamos submetidos dentro da unidade prisional.

Trabalhamos de forma exaustiva, sobrecarregados por uma grave e contínua redução do quadro de funcionários. Colegas vêm sendo demitidos, não há reposição, e muitos outros estão pedindo para sair por não suportarem mais os abusos, a pressão e o medo. A rotina tornou-se insustentável. O cansaço virou regra. A angústia, companheira diária.

Apesar de sermos monitores, e não policiais, somos nós que sustentamos o funcionamento da unidade. Com zelo, afinco e responsabilidade, realizamos tarefas essenciais e de altíssimo risco, sem qualquer garantia de segurança do Estado:

Somos nós que realizamos revistas de pertences trazidos por visitantes; somos nós que entramos nos pavilhões para revistas internas; somos nós que entramos sem máscaras, sem balaclavas, com o rosto exposto, para não sermos reconhecidos pelos internos; somos nós que colocamos as mãos em esgotos, dentro das celas, para localizar e retirar ilícitos; somos nós que retiramos internos das celas, conduzimos à enfermaria, ao serviço social, ao dentista; somos nós que abrimos e fechamos pavilhões diariamente, sem proteção, sem armamento, sem respaldo institucional.

Fazemos o trabalho mais perigoso, aquele que ninguém quer fazer — e fazemos sem a mínima segurança e, mesmo assim, passamos a ser alvo de perseguições e constrangimentos por parte de policiais penais recentemente lotados na unidade. De forma velada e covarde, insinuam que irregularidades e ilícitos encontrados no presídio poderiam ter participação dos monitores. Essa acusação implícita é cruel, injusta e profundamente ofensiva.

Como podem nos acusar, se somos nós que arriscamos a própria vida para encontrar e retirar esses materiais? Como podem nos apontar, se somos nós que entramos primeiro, sem esconder o rosto, expostos a possíveis represálias dos internos? Isso não é apenas desrespeito. Isso é assédio moral. Isso é perseguição. Isso é colocar trabalhadores em risco deliberado.

Para agravar ainda mais a situação, estamos sendo penalizados por um plano de saúde abusivo, com coparticipações absurdas, algo que nunca existiu nesses moldes. Há colegas que neste mês praticamente não receberam salário, porque o plano de saúde descontou quase tudo. E diante disso, a empresa cogestora permanece em silêncio, omissa, indiferente ao desespero dos trabalhadores.
Somos tratados como descartáveis.

Trabalhamos sem a proteção legal de policiais, mas executamos exatamente as funções mais perigosas, diariamente. Não temos a segurança de quem é policial, mas fazemos, literalmente, o trabalho deles. E, ainda assim, somos perseguidos, humilhados e expostos.

Diante de tantos abusos, riscos à vida, assédios e omissões, a categoria discute seriamente a possibilidade de paralisação. Não por irresponsabilidade, mas por instinto de sobrevivência. O que não dá mais é continuar sofrendo calados, com medo de morrer no exercício da função ou adoecer sem qualquer amparo.

Esta carta é um grito de socorro. Temos plena consciência de que, após tornarmos pública essa denúncia, retaliações podem ocorrer, seja por parte da empresa, seja por parte do próprio Estado. Ainda assim, escolhemos falar, porque o silêncio também mata. Governador Jerônimo Rodrigues, reveja urgentemente essa situação.

Olhe para os Monitores de Ressocialização.
Reconheça o trabalho árduo, perigoso e essencial que realizamos. Cesse as perseguições. Garanta segurança, respeito e dignidade. 

Não pedimos privilégios. Pedimos humanidade, justiça e proteção à vida”.

Atenciosamente,

Monitores de Ressocialização
Conjunto Penal de Itabuna

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